OVERMAN
Ele é um super-herói de segunda que combate vilões de quinta. Alcoólatra, dorme no beliche de uma pensão furreca, frequenta casas de swing e o divã de um analista para lidar com seu “problema de superego”. Voa, é imune a tiros, mas não à falta de atenção dos outros. É um pássaro? Um avião? Um teco-teco? Não. Ele é Overman, o super-herói tupiniquim criado por Laerte em tirinhas do final dos anos 1990 e publicado em livro em 2003.
Chega ao cinema numa produção caprichada de Iafa Britz com direção de Tomás Portella e equipe técnica de primeira. Caco Ciocler dá corpo e enchimentos ao herói pobre em sua luta contra o Capitalista Imundo, aquele que parece sempre capaz de sobreviver. A meio caminho de salvar o mundo, Overman também enfrenta o Maníaco Flatulento e Pane, a Detonadora de Redes Elétricas e Aniquiladora de Mercados.
Dispensado do trabalho como segurança da influencer Poline Pilsen (a atriz trans Maria Lucas), ele topa botar um paletó por cima da capa e ser contratado pelo governo do estado para atuar na segurança pública em companhia de Pâmela, a Mulher Cachorro (Karina Ramil). Tendo que dividir o protagonismo com ela, Overman precisará confrontar sua masculinidade tóxica.
Nem tudo acerta no alvo. Tem piada velha e gag sem graça, mas, no cômputo geral, não deixa de ser divertido. Estamos na esfera da pós-chanchada, evocando um modelo autoderrisório (ou antropofágico?) perante os grandes espetáculos estrangeiros. A ideia de um super-herói sujeito aos infortúnios do mundo real e identificado com ideais de esquerda tem lá o seu apelo cômico.
Caco Ciocler dá o tom certo de banalidade e patetismo ao personagem, bem coadjuvado por Otávio Müller em papel duplo, Victor Lamoglia, Raphael Logam, Marina Provenzzano e os já citados. O filme se garante tecnicamente nos âmbitos de fotografia, direção de arte, efeitos especiais e montagem. Como super-herói brasileiro, Overman faz par satírico com o épico Besouro, de João Daniel Tikhomiroff.
>> Overman está nos cinemas.




